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Dados do último censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) reforçam a tese ao revelar que 60,11% dos lares brasilienses têm pelo menos um carro. Em números absolutos, 465.211 de um total de 773.948 domicílios contam com um veículo na garagem. No ranking das capitais, Brasília perde apenas para Santa Catarina e vem antes de São Paulo, listada em 4º lugar.

Em uma estreita rua na Estrutural, Carlos Jorge de Jesus, 45 anos, vive com a mulher, Juracy Fernandes da Silva, também 45, em uma casa de tijolo, sem reboco ou luxo. Ele ganha a vida como “consertador de eletrodoméstico”. A cozinha pede uma geladeira nova faz tempo. Na sala, não tem sofá. A visita pode não ter onde se sentar, a água talvez não fique tão gelada, mas estacionado em frente à casa de Carlos e Juracy está o Fusca bege, modelo 1981. Esse, segundo o casal, aparece como necessidade.

O carro comprado há um ano e meio está parado por quatro meses. No para-brisas, Carlos anuncia a intenção de negociá-lo. “Se aparecer alguém, a gente vende, mas estou consertando devagarinho. Na minha profissão, é preciso ter agilidade, sair para comprar peça e trabalhar à noite. Nem sempre tem ônibus. Aqui, eles param de rodar às 21h”, explica.

A pessoa ter um ou vários carros não é problema. Ao contrário, reflete o crescimento da economia e a melhoria da renda do brasileiro, de modo geral. Mas a dependência deles para os deslocamentos diários, isso, sim, é preocupante, segundo avaliação do professor de Engenharia de Tráfego da Universidade de Brasília (UnB) Paulo César Marques da Silva. “Uma parcela considerável da população não teria carro ou o segundo automóvel se a mobilidade fosse melhor. Uma vez feito o investimento inicial, o custo do uso — combustível e manutenção — é relativamente baixo. Então, ela não se submete ao transporte público oferecido”, explica Marques.

É justamente essa a realidade local. Na mesma velocidade do inchaço da frota, crescem os problemas decorrentes desse fenômeno e obriga os condutores a passar mais tempo no trânsito, a mudar os hábitos e a exercitar a paciência nos deslocamentos diários. Na última década, a quantidade de veículos no DF cresceu cinco vezes mais do que a população. Atualmente, a frota é de 1,3 milhão, para 2,5 milhões de habitantes. Isso coloca a cidade entre as capitais com a maior taxa de motorização do país (leia arte). Com um transporte público precário, a perspectiva não é animadora.

O número excessivo de veículos e as consequências para as cidades foram temas abordados durante o Fórum Nacional de Secretários de Transportes, promovido pela Associação Nacional de Transportes Públicos (ANTP) há duas semanas, em João Pessoa. O superintendente da ANTP, Marcos Bicalho, revela que o problema deixou de afligir apenas os grandes municípios. Agora, atrapalha a vida da população de médias e pequenas localidades.

Entre as causas estão as sucessivas políticas adotadas pelos governos de incentivo ao transporte individual de passageiros. “Isso vem desde a década de 1960. É a redução de IPI (Imposto sobre Produtos) e dos subsídios para controlar e manter o preço da gasolina e a facilidade de crédito, além dos governos municipais e estaduais investindo em obras viárias para tirar os carros dos engarrafamentos. Estamos insistindo em uma política errada”, critica.

As principais alternativas, segundo Bicalho, são duas: investir em transporte público e restringir o uso do transporte individual por meio de rodízios, de pedágios urbanos e de cobrança por estacionamento. Além disso, é preciso que as empresa paguem o preço dos custos do transporte individual. “Se o governo quer expandir o metrô, precisa fazer o estudo de impacto ambiental e adotar medidas que reduzam os impactos da obra. Mas, quando a Anfavea (Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos) anuncia o aumento da produção, ninguém exige medidas compensatórias dos danos”, compara.


Mudanças
O diretor de Engenharia do Detran, José Lima, destaca as contradições das políticas de governo ao incentivar a fabricação e a compra de automóveis sem se preocupar se as cidades comportam tantos veículos. “Brasília é tombada, e o sistema viário, fixo. Quando cresce, é pouco. O número de vagas não aumenta”, atesta.

Lima aponta para a necessidade de mudanças no DF. “O nosso futuro próximo terá estacionamento pago nas áreas críticas, rodízio de placas e pedágio urbano. Não vejo outro caminho”, diz. Ele lembra que há pelo menos dois projetos de lei em tramitação na Câmara Legislativa sobre a possibilidade de implantação de rodízios. “Não importa o valor cobrado pelo estacionamento ou pelo pedágio urbano, mas é preciso garantir que a pessoa encontre uma vaga. Se ela realmente quer circular no centro, deve estar disposta a pagar o preço”, disse.

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